domingo, 15 de janeiro de 2012

O Papa certo para os tempos incertos

O tema desta pregação é o Bento XVI, o Papa certo para os tempos incertos. Vamos falar da bênção de Deus que é este Santo Padre para a Igreja do mundo todo. Dentro em breve, teremos, mais uma vez, o Santo Padre no Brasil. Ele virá para os jovens durante a Jornada Mundial da Juventude de 2013. Por isso, precisamos realmente conhecê-lo.Com a morte do Papa João Paulo II, todos diziam: “estamos órfãos”. No entanto, Deus, na Sua providência, mandou-nos o Papa certo. Quando Bento XVI ainda era Cardeal Joseph Ratzinger, haviam certas coisas que nos levanvam a não acreditar que ele seria eleito Papa. Algumas delas era o fato dele ter idade já avançada (próximo aos 80 anos) e também muitos inimigos, porque, desde 1981, era o inquisidor-mór, o homem da doutrina da fé, conhecido como o “martelo dos hereges”.Para os grandes pensadores e filósofos, Ratzinger era o cara reacionário, de direita, conservador; colocaram nele o apelido de “o Cardeal tanque de guerra”. Joseph Ratzinger era o sujeito que tinha a missão mais antipática da Igreja. Em sua homilia, na morte de João Paulo II, ele foi claro demais, politicamente incorreto, fez uma pregação rasgada, na qual dizia que a Igreja estava sendo atacada pela ditadura do relativismo e que o novo Papa não poderia se deixar levar pelo vento deste relativismo. Segundo ele, os maiores inimigos da Igreja estão dentro da própria Igreja, relativizando a fé. O relativismo está se tornando uma ditadura, porque, hoje, todos têm o direito de dizer o que quiser, menos quem é católico de verdade. Todos os hereges malucos podem dizer o que pensam, só nós não temos o direito de dizer que Maria é virgem, que ser casto é bonito, que o Papa é infalível, que a Igreja Católica é de Jesus Cristo.Todos têm a possibilidade de falar qualquer estupideza, menos de ser católico, de conhecer o Catecismo da Igreja Católica que foi promulgado pelo Papa João Paulo II, mas escrito pelo ainda jovenzinho Ratzinger. Foi ele quem denunciou, em 2005, que todos tinham direitos, menos os católicos, pois, estes têm apenas o direito de não existir.Eu estou sendo dramático ou o mundo está sendo assim mesmo? Tudo o quanto é maluquice tem cidadania, só o católico não é cidadão. O padre pode ser contra o aborto na sacristia, mas não na frente dos outros, diante da sociedade. Isso tudo se chama ditadura do relativismo, as pessoas vestem a máscara da tolerância e usam seu sorriso alucinado para dizer: “Nós amamos todo mundo, somos igreja do Deus que é “uma gracinha”, que só tem amor pra dar”. Relativismo é a máscara da tolerância, que esconde uma ditadura.O Santo Padre denunciou que existe uma ditadura que está trancafiando a Igreja, uma ditadura disfarçada de tolerância. Num dos conclaves mais curtos da história, que dia feliz, que dia bendito, quando, diante da televisão, o Cardeal Estévez Medina, anunciou Joseph Ratzinger como o novo Papa! Neste momento, todos os jovens se abraçavam na Praça de São Pedro.Nesse momento, o mundo jornalístico ficou perplexo, pois não entendiam a escolha de Ratzinger nem o fato de os jovens estarem comemorando. Mas o mundo sabia que nele iram encontrar um pai; não um cúmplice.O jovem não quer um “cara legal”, mas um pai. Há um equívoco quando dizem que o jovem quer encontrar num padre um cara igual a ele. No padre, o jovem quer encontrar uma orientação, um farol que lhe dê um caminho. É por isso que os jovens se abraçaram na Praça de São Pedro. O serviço que o Cardeal Ratzinger fez na Igreja foi às ovelhas, apontando os lobos disfarçados de pastores.Os católicos não são intolerantes. Se você não quer ser católico, fique sua sua, pois você está cheio de direitos. Mas deixe em paz quem quer ser! É esta a realidade, e o cardeal Joseph Ratzinger nos mostrou exatamente isso: o que é ou não católico.Ainda hoje sofremos quando acreditamos nas coisas da Igreja, é por isso que esse Papa maravilhoso de Deus nos deu um grande presente. Em 2012 teremos o ano da fé, por isso temos de preparar nossas baterias para viver esse ano. E o que o Papa ele quer que façamos? Que estudemos o Catecismo.Bento XVI é o Papa certo, porque ele nos dá a orientação da fé, afim de que não a percamos. Ele não é um revolucionário. Mas as coisas, dentro da Igreja, têm de ser feitas dentro de um processo orgânico, lento, com calma, porque nós temos dificuldades, pois ouvimos a Palavra e depois encontramos oposição.Temos de saber que essa coisa de evangelização, de conquistar tudo para Deus não acontece com tapas, mas com convencimentos, mostrando para as pessoas a beleza da fé católica, porque ela não é algo pelo qual nós matamos, mas algo pelo qual nós morremos.Eu desafio você, jovem, para uma aventura fantástica: ser católico de verdade, 100%, legítimo. Sei que muitos estão sentindo seu coração se alargar, porque a juventude foi feita para o heroísmo, para um grande desafio, que é o de ser católicos de verdade. É muito bonito ser católico, porque a verdadeira Igreja Católica é a Igreja dos santos. Há um pedaço de nós que já é Igreja e outro que ainda é terra de missão. E a terra de missão mais terrível e perigosa é a que está dentro do seu coração. É lá que enfrentamos o bárbaro que está dentro de nós.Se você quer conhecer a Igreja, leia a vida dos santos. Quer conhecer um padre de verdade? Leia a vida de Padre Pio. Olhe para os santos, eles são católicos. Que maravilha fazer parte da mesma Igreja de Padre Pio, de Santa Teresa d'Ávila, de tantos santos e santas de nossa devoção! Não estamos sozinhos nunca, mas acompanhados de muitos santos que estão conosco.A Igreja é objeto de fé, é uma realidade mais do céu do que da terra.

                                                                                                                                     Pe. Paulo Ricardo

Fonte: Canção Nova

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Por que te amo, oh, Maria


Em maio de 1897, ano de sua ida para o Céu, Santa Teresinha compôs esta poesia. Ir. Genoveva, no Processo Apostólico, testemunhou que Teresinha, já bem doente disse: "Ainda tenho que fazer uma coisa antes de morrer. (...) Sempre desejei exprimir num cântico em honra da Santíssima Virgem tudo o que penso a seu respeito". Nossa Pequena Teresa dizia que, quando pedia socorro à algum santo, tinha de esperar um pouco mas, quando pedia à Nossa Senhora, a graça vinha imediatamente. Já por ter sido escolhida por Deus para ser mãe do Altíssimo, Maria merece todo nosso amor e respeito. Assim como nossa santinha e neste dia onde celebramos a Imaculada Conceição, saibamos declarar a Virgem Santíssima o quanto a amamos e a queremos, como Mãe, ao nosso lado.




Quisera cantar, Maria, porque te amo,
Porque, ao teu nome, exulta meu coração
E porque, ao pensar em tua glória suprema,
Minh’alma não sente temor algum.

Se eu viesse a contemplar o teu fulgor sublime
Que supera de muito o dos anjos e santos,
Não poderia crer que sou tua filha
E, então, diante de ti, baixaria meus olhos.

Para que um filho possa amar sua mãe,
Que ela chore com ele e partilhe suas dores…
Pois tu, querida Mãe, nestas plagas de exílio,
Quanto pranto verteste a fim de conquistar-me!…
Ao meditar tua vida escrita no Evangelho,
Ouso te contemplar e me acercar de ti;
Nada me custa crer que sou um de teus filhos,
Pois te vejo mortal e, como eu, sofredora.

Quando o anjo te anunciou que serias a Mãe
Do Deus que reinará por toda a eternidade,
Eu te vi preferir, Maria – que mistério! -,
O inefável, luzente ouro da Virgindade.
Compreendo que tua alma, Imaculada Virgem,
Seja mais cara a Deus que o próprio céu divino;
Compreendo que tua alma, Humilde e doce Vale,
Possa conter Jesus, o grande Mar do Amor!…

Como te amo, Maria, ao declarar-te serva
Do Deus que conquistaste por tua humildade,
Tornou-te onipotente essa virtude oculta.
Ela ao teu coração trouxe a Trindade santa
e o Espírito de Amor, cobrindo-te em sua sombra,
O Filho, igual ao Pai, encarnou-se em teu seio…
Inúmeros serão seus irmãos pecadores,
Uma vez que Jesus é o teu primeiro filho!…

Ó Mãe muito querida, embora pequenina,
Trago em mim, como tu, o Todo-Poderoso
e nunca tremo ao ver em mim tanta fraqueza.
O tesouro da Mãe é possessão do Filho,
e sou tua filha, ó Mãe estremecida.
Tua virtude e amor não são, de fato, meus?
E quando ao coração me vem a Hóstia santa,
Teu Cordeiro, Jesus, crê que repousa em Ti!…

Tu me fazes sentir que não é impossível
Os teus passos seguir, Rainha dos eleitos,
Pois o trilho do céu nos tornaste visível,
Vivendo cada dia as mais simples virtudes.
Quero ficar pequena ao teu lado, Maria,
Por ver como são vãs as grandezas do mundo.
Ao ver-te visitar a casa de Isabel,
Aprendo a praticar a caridade ardente.

Aí escuto absorta, ó Rainha dos anjos,
O canto celestial que jorrou de teu peito;
Ensinas-me a cantar os divinos louvores
E a só me gloriar em Jesus Salvador.
Tuas frases de amor caíram como rosas
Que iriam perfumar os séculos futuros.
O Todo-Poderoso em ti fez maravilhas,
Cujas bênçãos, na prece, quero usufruir.

Quando o bom São José ignorava o milagre
Que intentavas velar com tua humildade,
Tu o deixaste chorar aos pés do Tabernáculo
Que esconde o Salvador e sua eterna Beleza!…
Maria, amo esse teu eloqüente silêncio,
Que soa para mim como um doce concerto,
Melodia cantando a grandeza e o poder
De um coração que espera ajuda só dos céus…

E, mais tarde, em Belém, ó José e Maria,
Rejeitados os vi por todas as pessoas.
Não os recebeu ninguém em sua hospedaria,
Que só os grandes acolhe e não pobres migrantes…
Para os grandes o hotel, portanto é num estábulo
Que a Rainha do céu dá à luz o Filho-Deus.
Minha querida Mãe que acho tão amável,
Como te vejo grande em lugar tão pequeno!…

Quando vejo o Eterno envolvido em paninhos
E ouço o fraco vagir desse Verbo divino,
Ó Mãe querida, não invejo mais os anjos,
Porquanto o Onipotente é meu amado Irmão!…


Como te amo, Maria, a ti que, em nossas terras,
Fazes desabrochar essa divina Flor!…
Como te amo escutando os pastores e os magos
Guardando, com amor, tudo no coração!…

Amo ao ver-te também, entre as outras mulheres,
Os passos dirigindo ao Templo do Senhor.
Amo-te apresentando o nosso Salvador
Àquele santo ancião que O tomou em seus braços.
Em princípio, sorrindo, escuto o canto dele,
Logo, porém, seu tom me faz cair em pranto,
Pois, sondando o porvir com olhar de profeta,
Simeão te apresentou uma espada de dores.

Rainha do martírio, até a noite da vida
Essa espada de dor traspassará teu peito.
Cedo tens de deixar o teu país natal,
Fugindo do furor de um rei cheio de inveja.
Jesus cochila em paz nas dobras de teu véu;
José te vem pedir para partir depressa
E logo se revela tua obediência,
Partindo sem atraso ou considerações.

Lá na terra do Egito, ó Maria, parece
Que manténs, na pobreza, o coração feliz.
Uma vez que Jesus é a mais bela das pátrias,
Com Ele tendo o céu, pouco te importa o exílio…
Mas, em Jerusalém, uma amarga tristeza,
Como um imenso mar, vem inundar teu peito:
Por três dias Jesus se esconde de teu amor;
Agora é exílio, sim, em todo o seu rigor.

Tu O descobres enfim, e alegria te inunda
Vendo teu belo filho encantando os doutores
E lhe dizes: “Por que, meu filho, agiste assim?
Eis que eu mais o teu pai chorando te buscávamos!”
Então o Filho de Deus responde (oh! que mistério!)
À sua terna Mãe que os braços lhe estendia:
“Por que me procurais?… Não sabeis, talvez,
Que das obras do Pai devo me ocupar?”
O Evangelho nos diz que, crescendo em saber,
A Maria e José, Jesus obedecia.
E o coração me diz com que infinda ternura
O Menino a seus pais assim se submetia.
Só agora compreendo o mistério do templo:
Palavras de meu Rei envoltas em mistério.
Teu doce Filho, Mãe, quer que sejas exemplo
De quem O busca em meio à escuridão da fé.

Já que o supremo Rei do Céu quis que sua mãe
Se afundasse na noite e em angústias interiores,
Então, Maria, é um bem sofrer assim na terra?
Sim, sofrer com amor é o mais puro prazer.
Tudo quanto me deu Jesus pode tomar;
Dize-lhe que comigo nunca se preocupe…
Que se esconda, se quer; consinto em esperar
Até o dia sem poente em que se apaga a fé.

Sei que, em Nazaré, ó Mãe, cheia de graça,
Longe das ambições, viveste pobremente,
Sem arrebatamento ou êxtase e milagre
Que te adornasse a vida, ó Rainha do Céu.

Na terra é muito grande o bando dos pequenos
Que, sem temor, a ti elevam seu olhar.
É o caminho comum que te apraz caminhar,
Incomparável Mãe, para guiá-los ao céu!
Enquanto espero o céu, ó minha Mãe querida,
Contigo hei de viver, seguir-te cada dia.
Contemplando-te, Mãe, sinto-me extasiada
Ao descobrir em ti abismos só de amor.
Teu olhar maternal expulsa meus temores,
Ensina-me a chorar e também a sorrir.

Em vez de desprezar gozos puros e santos,
Tu os queres partilhar, digna-te a abençoá-los.
Em Caná, ao notar a angústia do casal
Que não sabe ocultar a falta de vinho,
Preocupada contas tudo a teu Jesus,
Esperando de Seu poder a solução.
Parece que Jesus recusa teu pedido
Dizendo: “Isto que importa a mim e a ti, Mulher?”
Mas, lá em seu coração, Ele te chama Mãe
E por ti Ele opera o primeiro milagre…
Pecadores, um dia, ouviam a palavra
Daquele que no céu deseja recebê-los.
Junto deles te vejo, ó Mãe, sobre a colina,
E alguém diz a Jesus que tu pretendes vê-Lo.
Então o Filho de Deus, diante da turba inteira,
Mostrou a imensidão de Seu amor por nós
Dizendo: “O meu irmão e minha Mãe quem é?
Não é outro senão quem faz minha vontade”.

Virgem Imaculada, a mais terna das mães,
Ao escutar Jesus tu não ficaste triste
Mas te alegraste, pois Ele nos fez saber
Que nossa alma, aqui embaixo, é Sua família.
Tu te alegras por ver que Ele nos dá Sua vida,
E os tesouros sem fim de Sua divindade!…
Como, pois, não te amar, ó Mãe terna e querida,
Ao ver tamanho amor e tão grande humildade?

Tu nos amas, ó Mãe, como Jesus nos ama
E consentes, por nós, em afastar-se dele.
Amar é tudo dar; depois, dar-se a si mesmo.
Isto provaste ao te tornares nosso apoio.
Conhecia Jesus tua imensa ternura
E os segredos de teu coração maternal.
Ele nos deixa a ti, do pecador Refúgio,
Quando abandona a cruz para esperar-nos no céu.
Tu me apareces, Mãe, no cimo do Calvário,
De pé, junto da cruz, qual padre ao pé do altar,
E ofertas, para aplacar a justiça do Pai,
Teu querido Jesus, esse doce Emanuel…


Um profeta já disse, ó Mãe tão desolada:
“Não há dor neste mundo igual à tua dor”!
Ficando aqui no exílio, ó Rainha dos mártires,
Todo o sangue que tens no coração nos dás.

O teu único asilo é a casa de São João;
Filho de Zebedeu deve substituir Jesus!…
É o detalhe final que vem nos evangelhos
E não se fala mais da Rainha dos céus.
Mas, Mãe querida, teu silêncio tão profundo
Não revela tão bem a nós que o Verbo eterno
Quer cantar Ele próprio o louvor de tua vida
Para poder encantar teus filhos lá no céu?

Logo, logo ouvirei essa doce harmonia;
Cedo irei para o céu a fim de lá te ver.
Tu que, no amanhecer da vida, me sorriste,
Vem me sorrir de novo, ó Mãe! Já se faz noite!…
Não tenho mais temor do brilho de tua glória;
Contigo já sofri, o que desejo agora
É cantar, em teu colo, ó Mãe, porque é que te amo
E mil vezes dizer-te que sou tua filha!…

sábado, 1 de outubro de 2011

Por que te amo, Teresa?


O texto abaixo é de autoria de D. Milton Kenan Junior, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, região Brasilândia. Dom Milton tem um blog: In Manus Tuas, que também é o seu lema episcopal. Para celebrar o dia de Santa Teresinha, nada melhor que uma declaração de amor feita à ela.



"A ultima das poesias que Santa Teresinha compôs foi dedicada a Nossa Senhora, e tem como título: “Por que te amo, Maria?”. Em versos alexandrinos Teresa exalta a vida de Maria, que a torna tão semelhante a nós, seus filhos, razão pela qual Teresa se aproxima dela com confiança e ver redobrado o seu amor.
Não escrevo aqui uma poesia, e penso que não seja a ultima vez que escrevo sobre Teresa; mas, sirvo-me da expressão de Teresa para falar do amor que nutro por ela.
Penso que muitas pessoas têm uma imagem equivocada de Santa Teresinha. Para muitos, ela é a “Santinha das Rosas”, que distribui pétalas de rosas, e faz chover rosas sobre os que a invocam. Não duvido da intercessão dela; mas, para mim, Teresa é mais do que aquela menina meiga e adocicada, cuja imagem encontramos em tantos santinhos. As vezes penso que esta imagem esconde aos olhos das pessoas a verdadeira fisionomia de Teresa de Lisieux, proclamada Doutora da Igreja, pelo Papa João Paulo II aos 19 de Outubro de 1997, na Praça de São Pedro, em Roma.
Aproximando-nos dos seus Manuscritos, vamos sendo levados lentamente à descoberta do verdadeiro rosto de Teresa Martin. Embora sua linguagem pareça um pouco “fora de moda”, se perseveramos na leitura de suas obras, descobrimos uma gigante na fé, uma testemunha do mais genuíno amor de Deus, uma atleta do Espírito!
“Por que te amo, Teresa?” – Trata-se de uma pergunta que cada um daqueles que aproximando-se dela pode responder a seu modo e a seu tempo. Sem querer esgotar a resposta, partilho com simplicidade a razão do meu amor por Teresa, irmã de caminhada e exemplo de vida:
“Por que te amo, Teresa?” – porque nas entrelinhas dos teus manuscritos nos deixas perceber o quanto tu és semelhante a nós. Não escondes as tuas lutas, tuas fraquezas e derrotas, tua sensibilidade tão aguçada, teu temperamento traumatizado pela morte de tua mãe, quando eras ainda tão pequena e não podias compreender em profundidade o alcance dos fatos. Custou para ti reencontrar o equilibrio, e tu mesmo confessavas que embora jamais lhe faltasse boa vontade, a tua “cura” foi obra e graça de Deus!
“Por que te amo, Teresa?” – porque em ti tudo fala da beleza de uma familia, e do encanto de se ter um lar. Os anos passados no convívio de teu pai e de tuas irmãs deixaram tantas lembranças. O balanço no quintal, a pescaria, os passeios em Alençon, as noites embaladas pelas estórias e cantigas de tuas irmãs, a alegria de estar na igreja em companhia do teu “Rei” , o teu Pai, o primeiro sermão que gravaste no coração, os difíceis anos na Abadia, as peraltices pelas ruas de Lisieux na companhia de Celina e de tuas primas Guérin. Eras uma adolescente nada incomum, tão semelhante às tuas companheiras e amigas, a ponto de não dispensares sequer o cabelereiro, em algumas ocasiões, para parecer-se mais velha, mais madura, querendo conquistar a realização dos teus desejos.
“Por que te amo, Teresa?” – porque naquela noite do Natal, acolheste a graça da tua conversão, disposta a esquecer-se sempre de ti, para dar alegria aos outros; mesmo que isso lhe custasse sacrifícios. Invadida pela Luz que se despreendia da manjedoura, tornavas-te uma outra criatura, fazendo tua a paixão de Cristo de salvar os pecadores. Com que perseverança adotaste Pranzini o criminoso como teu filho e, com que alegria acompanhaste no momento derradeiro, poucos minutos de sua cabeça despreender-se do seu corpo, pela força da guilhotina, quando tomou o Crucifixo das mãos do padre e beijou-o como se beija o mais terno amigo.
“Por que te amo, Teresa?” – porque desde pequena sempre foste audaciosa. Que vontade enérgica possuias, sobretudo quando se tratava de cumprir os teus deveres e alegrar os que contigo conviviam. Foi graças a esta audácia que lutaste pela tua vocação! Não recuaste diante de tantos “nãos”, não desististe mesmo diante da recusa do Côn. Delatroëtte e do Bispo Mons. Hugonin, a quem te dirigiste na companhia do teu pai. Na tua audácia foste ao Papa, não temendo suplicar-lhe a concessão de ingressar no Carmelo com os teus poucos quinze anos.
“Por que te amo, Teresa?” – porque ingressando no Carmelo, confessaste que o único que a atraia era o teu Jesus, sendo o teu desejo unicamente agradá-Lo. Não obstante desejasse amá-lo até a loucura tiveste que conviver com tua fraqueza: o sono e as distrações na oração, a pouca resistência à penitência, e, sobretudo a enfermidade do teu “Rei”, tão estranha aos teus pensamentos. Encontras-te, de fato, a Cruz no Carmelo. Entretanto não fugiste, nem recuaste, ao contrário, abraçaste o Lenho com todo o peso aceitando tudo por amor.
“Por que te amo, Teresa?” – porque no Carmelo aprendeste a conviver com tuas irmas sem distinção daquelas que lhe eram ou não mais simpáticas. Amaste a todas e por todas te desvelaste, fazendo das tuas poesias, dos teus pequenos serviços, das peças teatrais, da tua companhia tão alegre e risonha nos encontros da comunidade, ocasião para semear alegria e animo no coração das mais fracas e mais difíceis na convivência. Cumpriste assim o mandamento de amar, suplicando que Jesus amasse as tuas irmãs através de ti.
“Por que te amo, Teresa?” – porque aprendeste a viver com o necessário, não buscaste privilégios e nem reclamaste os prejuízos que ocorriam por causa da necessidade de tuas irmãs ou por causa do descuido delas quando serviam-se de tuas coisas. Aceitaste o “ultimo lugar” e aprendeste com o Mestre a fazer-se “serva de todos”, não reclamando os teus direitos, e nem protestando tuas necessidades. Impressiona-me quando lembro que nunca tiveste direito de “voto” e nunca pudeste ocupar um lugar na “sala do capítulo”, sendo “obrigada” a permanecer toda a vida no noviciado, a cuidar de tuas irmãs noviças, sem sequer poder servir-se do título de “mestra”.
“Por que te amo, Teresa?” – porque te tornas-te “irmã” de todos os que se aproximaram de ti. Com que firmeza e ternura acolheste as noviças como tuas irmãs, dedicando-se em forma-las no caminho da renuncia a si mesma e do amor fraterno. Com que determinação acolheste teus “irmãos espirituais” Roulland e Bellière, revelando assim a sua vocação de ser “apóstola dos apóstolos”, no teu amor sublime pelos sacerdotes. Apesar das fraquezas dos padres não desististe jamais de amá-los, rezando e sacrificando por eles. Tua ultima comunhão dedicaste ao pobre Pe. Jacinto Loyson, que havia abandonado o sacerdocio e perambulava pela França pregando contra a Igreja, renegando a sua fé.
“Por que te amo, Teresa?” – porque não guardaste para ti somente o teu segredo, a tua descoberta, a qual chamaste de “pequena via”, a via da confiança e do amor! No limite da tua fraqueza descobriste o quanto agrada ao Pai ver o esforço do filho que luta para resistir à mediocridade, e perseverar no amor. Aprendeste e ensinas aos que se aproximam de ti que “ é somente a confiança que nos conduz ao amor”. Tomas nas mãos os teus irmãos para conduzi-los ao Amor Misericordioso de Deus, a fim de que não se cansem na ardua senda da santidade, mas ao contrário, na confiança apoiem-se sempre no amor do Pai que jamais desempara o filho que nele confia.
“Por que te amo, Teresa?” – porque acolheste tua enfermidade como um dom ainda maior de amor, aceitando sentar-te à mesa com os pecadores, quando da “noite da fé” que suportaste, a medida que teu corpo degenerava e tuas forças iam pouco a pouco desaparecendo. Naqueles dias tão dificeis e dolorosos revelaste teu segredo quando disseste: “Tudo é graça!” Torna-se mais fácil suportar os problemas quando vemos neles as mãos do Pai que não nos desampara e conduz tudo conforme o seu plano de amor!
“Por que te amo, Teresa?” – porque teu único amor foi Jesus! Há poucos anos descobriram o que escreveste na porta do teu quarto no cumulo da escuridão da fé que sofreste nos ultimos anos de tua existência: “Jesus é o meu único Amor!” Sim fizeste de Jesus o teu único Amor! Tuas ultimas palavras, foram, de fato, um ato de amor: “Meu Deus, eu vos amo!”
“Por que te amo, Teresa?” – porque cumpres a tua promessa de “passar o céu fazendo o bem sobre a terra”, sussurrando nos nossos ouvidos: “Só o amor basta!”...”jamais me arrependi de me ter entregue ao amor!”...”na vida sempre busquei a verdade”. Convida-nos a percorrer a “pequena via” contigo, não desistindo jamais de amar, pois a recompensa do amor é o próprio amor!
“Por que te amo, Teresa?” – porque qual “rosa desfolhada” tu continuas no coração da Igreja a ser o amor, a lembrar ao mundo e a Igreja, que se faltar o amor falta tudo, nada se sustenta, nada vale a pena. Como o poeta ousas repetir-nos: “Tudo vale a pena, quando a alma não é pequena!”...“Só o amor permanece para sempre!”
Obrigado, Teresa porque exististe...e continuas a existir no coração de Deus e no nosso coração. Não deixes jamais de nos acompanhar com tua interessão e com teu amor; pois, animados e sustentados por Ti, podemos na Igreja palpitar como o coração, fazendo circular entre nós o Amor de Deus!
Dom Milton Kenan Junior

sábado, 23 de julho de 2011

É importante que voltemos à piedade Eucarística




Padre Paulo Ricardo
Foto: Maria Andréa/cancaonova.com

Sabemos que não há Igreja se não houver Eucaristia. Precisamos resgatar a fé da Igreja, a fé na presença Eucarística de Nosso Senhor Jesus Cristo.


É evidente que eu sempre tive muita devoção pela Eucaristia. A ordem de Jesus era para que celebrássemos a Santa Missa, e a verdadeira devoção Eucarística é celebrar a Santa Missa e comungar [o Corpo de Cristo]. Já a Adoração Eucarística é muito legítima, mas foi uma invenção do segundo milênio. Essa prática [Adoração Eucarística] é algo recente, por isso as pessoas acham que ela não é obrigatória. Tenho de confessar que eu, segundo as normas litúrgicas, fiz uma capela no seminário de Cuiabá sem o sacrário; nós o colocamos numa capelinha menor, pois a norma litúrgica diz que o lugar onde se celebra a Eucaristia não deve haver a presença do sacrário.


Valorizando o passado, eu estava muito tranquilo na minha devoção Eucarística, porque celebrava a Missa e comungava, mas devo confessar que quase nunca eu adorava a Jesus Sacramentado. Mas o que mudou na minha vida para que eu mudasse de opinião? Foi o pontificado do Papa Bento XVI. Quando ele foi eleito Papa, duas coisas aconteceram na minha vida. Primeira: ele tomou atitudes que deram um curto-circuito na minha cabeça: começou a insistir na Adoração Eucarística.


Na vigília com o Papa, ocasião do encerramento do Ano Sacerdotal, diante de cerca de 20 mil sacerdotes, Bento XVI expôs o Santíssimo; e nós ficamos ali, de joelhos, rezando. Naquele dia, o Pontífice conseguiu fazer com que milhares de padres colocassem seus joelhos no chão e adorassem a Jesus.


Precisamos entender que a Adoração Eucarística é algo urgente.
Foto: Maria Andréa/cancaonova.com


A segunda coisa que mudou em mim com a eleição de Bento XVI é que agora João Paulo II está no céu. Acho que ele conseguiu fazer na minha cabeça o que não conseguiu quando estava vivo. E nós precisamos entender que a Adoração Eucarística é algo urgente. Não é um devocionismo; ela faz parte da própria fé da Igreja.


Papa Bento XVI escreveu a Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis - "O sacramento do amor". Nela, ele cita uma frase do bem-aventurado Agostinho, santo no primeiro milênio: “Ninguém coma aquela carne sem que antes tenha adorado. Se não adorar, estará pecando”; ou seja, se você quer comungar, tem de adorar ao Santíssimo Sacramento.


Por que essa prática [Adoração Eucarística] é tão importante? Porque, no primeiro milênio, a Igreja vivia uma fé inabalável. Os cristãos acreditavam na presença de Jesus na Eucaristia. Durante os mil primeiros anos, não havia heresia, todos acreditavam e iam à celebração da Santa Missa. Nela, adoravam e comungavam o Corpo de Cristo. Acontece, porém, que, no segundo milênio, surgiram inúmeras heresias que, somadas, culminaram na heresia protestante, quando Lutero negou a existência de Jesus Cristo na Eucaristia.


Jesus disse: “Tomai todos e comei, esse é o meu corpo. Tomai todos e bebei, esse é o meu sangue”. Deus está presente por imensidade em todos os lugares; no entanto, a presença de Jesus na Eucaristia tem mais consistência, tem mais ser; ela é mais presença, mais ativa.


É impressionante que, justamente na época em que começaram as heresias da Eucaristia, começaram também a surgir os Milagres Eucarísticos. Nós necessitamos urgentemente da Adoração Eucarística; precisamos voltar a dobrar nossos joelhos diante de Deus, a fazer visitas ao Santíssimo Sacramento.


"A presença de Jesus na Eucaristia tem mais consistência, tem mais ser", afirma sacerdote
Foto: Maria Andréa/cancaonova.com


Quando Nossa Senhora apareceu em Fátima, em 13 de maio 1917, ela abriu seus braços e um raio de luz divina inundou o coração de três crianças: Lúcia, Jacinta e Francisco. Elas receberam a graça divina. Instintivamente, prostraram-se diante de Deus e rezaram: “Ó Santíssima Trindade, eu vos adoro, eu vos amo no Santíssimo Sacramento”. Essa oração é a confirmação daquilo que Deus já vinha fazendo no coração daquelas crianças.


Para preparar o coração delas, o Senhor já havia mandado o Anjo da Paz, que se prostrou, reverenciando a Deus; e as crianças também fizeram o memo. Esse ser celeste as ensinou a rezar: “Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão por aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não Vos amam”. Nós precisamos repetir essa oração diante do Santíssimo Sacramento.


Em outra aparição, o anjo ensinou aos pequenos: “Santíssima Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo –, adoro-Vos profundamente e Vos ofereço o preciosíssimo corpo, sangue, alma e divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra em reparação aos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos pobres pecadores”.


Precisamos pedir perdão a Deus pelas blasfêmias, oferecer nossa adoração em reparação ao Santíssimo Coração de Jesus. Durante a adoração é importante compreendermos o quanto ela está fazendo em nós. É importante que voltemos à piedade Eucarística.


Louvo a Deus pelo Papa Bento XVI que mudou a minha vida, minha visão sobre a Adoração Eucarística. Se não voltarmos a tratar a Eucaristia com toda piedade e adoração que ela merece, perderemos nossa fé em Jesus Eucarístico.


Transcrição e adaptação: Michelle Mimoso

Extraído de Cançãonova.com

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Nosso Papa

Desde o primeiro instante que vi essa foto, logo imaginei que os 2 estavam relembrando algum fato da infância deles.




Desde que Joseph Ratzinger tornou-se Bento XVI, eu o admirei. Não preciso aqui dizer os motivos. Quem tem amor à Igreja, sabe as razões pelas quais se pode admirar um Papa. Mas, apesar da admiração, nunca senti que o amava. Mas, eu o amo. Eu amo o Papa. Achei que nunca amaria outro como amei JP II (pois ele havia sido o único Papa que eu tive). Mas eu amo o Papa Bento XVI. Descobri isso no último dia 29 de junho. Graças a Deus. E a Deus sou grato por ele.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

A violência e o carisma da paixão

Abaixo temos um texto elaborado por um Sacerdote Passionista onde ele conta um pouco como foi conviver com a triste situação onde jovens foram assassinados (relembre o caso aqui). Não precisamos, por não sermos passionistas, achar que nada temos com o texto. Ele serve para reflexão acerca de como vemos os problemas e dificuldades que assolam nossa realidade, nossa sociedade. E mais! Todos deveríamos ser passionistas. Todos deveríamos anunciar a Paixão de Nosso Senhor como verdadeira fonte de vida.

A Violência e o Carisma da Paixão
Passei um bom tempo pensando no que escrever. Depois de um período de reflexão e olhando para o interior da nossa vida e prática Passionista, decidi escrever sobre A Violência e o Carisma da Paixão. Por quê? Por que acredito que as novas e diversas feições da violência exigem uma releitura da nossa razão de ser Passionista. Caso contrário, perderemos o direito de sermos discípulos e discípulas de Jesus, de São Paulo da Cruz, de Maria Madalena Frescobaldi e de tantos outros/as que se preocuparam com a vida e vida com dignidade.
Entre os meses de janeiro e março deste ano Luziânia, a cidade onde moro juntamente com mais três religiosos passionistas, virou notícia nacional e internacional. A razão foi o bárbaro assassinato de 7 (sete) jovens entre 14 e 19 anos neste curto período. Neste tempo, de forma especial, fui profundamente questionado em minha fé e em meu ministério. Minha formação à Vida Religiosa Passionista, minha Profissão Religiosa e, sobretudo, minha Ordenação Presbiteral, “foram colocadas à prova.” Como SER PASSIONISTA diante de tamanha crueldade? Depois das várias reuniões com as autoridades e com as famílias desses jovens, como VOLTAR para casa? Depois de ir até o vale onde aqueles jovens foram “sepultados”; depois de “visitar” cada cova rasa, como não CHORAR? No decorrer dos acontecimentos, entre encontros e desencontros, como CELEBRAR a EUCARISTIA como MEMÓRIA ATUANTE de Jesus? Todos esses acontecimentos fizeram doer meu corpo...
Era preciso reler muitas coisas! Meus “pés passionistas” pisavam um novo chão! Chão de perdas sem pedir licença. Chão habitado por mães desesperadas, visivelmente cansadas e com marcas doloridas no corpo, provocadas pelo sol forte e pelos galhos secos do cerrado goiano. Marcas provocadas ainda pelos estreitos caminhos tantas vezes percorridos na esperança de encontrar seus filhos. Dores. Dores por gritar, por se sentirem impotentes. E era esse o meu chão, o meu ponto hermenêutico. O meu cuidado era o de não perder a COMPAIXÃO!
No dia 12 de maio passado, no ginásio de esportes da cidade, aconteceu o velório coletivo de cinco dos sete jovens (guardem esses nomes em sua memória: Paulo Vitor, Márcio, Flávio Augusto, Divino Luiz e George Rabelo).
Na noite daquele dia foi muito difícil dormir. Parecia que meu corpo queria permanecer em vigília. Decidi então escrever. Talvez tenha sido para eternizar, no mais humilde dos desejos, aquele acontecimento. Partilho com você...
“Hoje vivi uma das experiências mais fortes da minha vida. VER caixões perfilados, lacrados, rodeados pelas mães, pelos pais, pelos irmãos e irmãs, não foi nada fácil. OUVIR choros, lamentos, foi terrível. Literalmente experimentei DESCER à “mansão dos mortos”. Ao final estava com uma terrível dor de cabeça a ponto de sentir vômitos. Essa foi a “forma mais sublime” de o meu corpo reagir, a maneira que meu corpo encontrou de entrar em comunhão com aquela atmosfera... naquele ginásio...
Dias atrás fui até o local onde supostamente esses jovens deram o último suspiro. “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Pensei que poderia ter sido assim. Entrega livre. Entrega gratuita daquilo que temos de maior valor – a vida – para quem amamos na certeza de que saberá cuidar bem dela como quem cuida de um tesouro. Mas não foi assim! Foram corpos levados a contra gosto ao matadouro. Por isso, não foi entrega livre, pois ainda não tinha chegado a HORA daqueles jovens. 13, 14, 16, 19... É uma matemática onde a soma é ainda muito pequena.
Por que aqueles jovens foram até aquele “vale de morte”, ainda hoje ninguém tem respostas. Só perguntas. Mortos, foram colocados em covas rasas. Pude vê-las por duas vezes (agora compreendendo porque tudo que é absurdo, exige provas!). O lugar é inóspito, talvez seja por isso que não puderam mais voltar para suas casas. Ficaram naquela “mansão dos mortos” por um longo tempo. Até serem apontados pelo próprio assassino, Admar Jesus da Silva.
Depois que foram encontrados os restos mortais, o tempo de espera foi longo demais. Foi um tempo de muitas reuniões, protestos, lágrimas. Um tempo de olhares profundos fitando o infinito... Tempo de reunir a comunidade para reacender a indignação. Tempo para lutar por um novo mundo possível e necessário.
Na terça-feira da Semana Santa era dia da tradicional procissão do encontro - uma prática devocional comum aqui em Goiás. Mas o momento pedia de nós um novo encontro. Por isso, saímos às ruas da cidade pedindo um encontro de Jesus com Diego, Paulo Victor, Divino Luiz, George, Flávio e Márcio Luiz. Um encontro de Maria com Dona Aldenira, Dona Sônia, Dona Mariza, Dona Sirlene, Dona Valdirene e Dona Maria Lúcia, mães que queriam encontrar seus filhos para juntos se prepararem para a festa da páscoa que se aproximava...
Os dias foram passando. Aconteceu a páscoa de Jesus e elas continuavam sem seus filhos... E o Dia das Mães? Como comemorá-lo se a família não estava completa? Eles não retornaram, nem mandaram notícias. Por isso, mais uma vez, lágrimas foram jorradas, misturadas aos lamentos. E elas viveram um Dia das Mães muito diferente dos outros anos!
Depois de um bom tempo de incertezas, mas mantidos por um fino fio de esperança, pois algumas mães ainda alimentavam a esperança da possibilidade daqueles ossos não serem de seus filhos, veio a triste notícia: seus filhos estavam mortos. A ciência provou! O DNA comprovou! E a esperança acabou.
O velório foi marcado. Velar o que se não tinham mais corpos? Velar ossos. E ossos secos. Mas mesmo assim era uma forma de acalanto para aquelas famílias. Pelo menos poderiam chorar de perto seus filhos. Sepultá-los e também poder “visitá-los” quando a saudade não couber mais dentro do coração, mesmo num coração de mãe que é tão grande!
Recordo que aquele 12 de maio amanheceu diferente: enfumaçado e um pouco mais frio do que os dias anteriores. Talvez porque corações ainda jovens foram impedidos de pulsar! Parece que também o cosmos estava triste por este acontecimento. Estava difícil brilhar logo de manhãzinha sabendo que logo, logo teria que velar e sepultar os ossos de seus filhos. Ah! Na noite anterior choveu aqui em Luziânia. Foram águas ou lágrimas do Criador? Perguntei para mim mesmo.
Passava das oito da manhã quando os corpos chegaram ao ginásio de esportes. O primeiro momento foi reservado somente para os familiares. Momento de intimidade! Depois as pessoas foram adentrando no recinto. Algumas por curiosidades, outras por solidariedade...
Por volta de 11h, um pastor da Assembléia de Deus e eu, coordenamos um momento de oração (Desde ontem, quando recebi a notícia do velório, pensava num texto bíblico que pudesse nos iluminar. Logo veio Ez 37, 1-14. E foi esse texto que refleti junto com o povo presente). Ao final, com a bandeira do Brasil, passando sobre os caixões, cantamos numa única voz: “Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente. Que a morte não me encontre um dia solitário sem tem feito o que eu queria...”
E, em seguida, fomos ao cemitério sepultá-los para que pudessem descansar em paz. Não mais naquelas covas rasas, feita às presas, frutos de uma ação proibida...
Pe. Célio Amaro, CP

sábado, 2 de julho de 2011

Oferecimento do dia

Oferecer nosso dia, logo em seu início, a Deus Pai, é altamente recomendável. Afinal, estamos nos consagrando e nos colocando à sua disposição sempre.

Eis é uma oração que nossa Pequena Teresa fez à pedido da Ir. Maria do Sagrado Coração para que esta presenteasse uma amiga e que pode nos ajudar nessa oferta de nós mesmos ao Bom Deus.


Meu Deus, ofereço-vos todas as ações que farei hoje,

nas intenções e para a glória do Sagrado Coração de Jesus.
Quero santificar as batidas do meu coração,
meus pensamentos e obras mais simples,
unindo-os aos seus méritos infinitos,
e reparar minhas faltas,
lançando-as na Fornalha de seu Amor Misericordioso.
Oh, meu Deus! Peço-vos para mim e para aqueles que me são caros
a graça de cumprir perfeitamente vossa santa vontade,
de aceitar por vosso amor as alegrias e
as penas desta vida passageira,
para que estejamos um dia reunidos no Céu,
por toda a eternidade.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Por que Deus é um ser escondido?

Como a vida seria diferente se Deus fosse uma divindade "a ser tocada com as mãos". Seria a evidência. Não precisaríamos de provas sobre a Sua existência. Neste sonho bastaria fazer-lhe um pedido para sermos atendidos mais do que de repente. Temos um inimigo? O Poderoso logo o afastaria. Temos dívidas? O socorro mágico aconteceria antes do pôr-do-sol. Somos acometidos por uma doença? Feito o pedido de cura, num piscar de olhos o mal estaria superado.

Mas Deus é um Ser que confia na inteligência humana. O homem pode chegar a Deus a duras penas, às apalpadelas. "Como cegos vamos tateando como quem não enxerga" (Is 59, 10). Isso nos dá ocasião para expressarmos fé, que é um ato meritório, por depender de nossa livre vontade. O delírio fantasioso, acima descrito, seria um puro “encantamento”. Seríamos obrigados a crer. Assim como a Providência dispôs, baseamo-nos numa intuição muito forte de que este Ser Poderoso tem que existir, e Lhe devemos profundo respeito. E com amor nos consideramos profundamente ligados a Ele.

Quem é que nunca chega a Deus? Os que não são capazes de dobrar os joelhos, vale dizer, quem é um soberbo de coração. Também não alcançam essa fé salvadora, os perversos que praticam o mal. “Os pecadores não ficarão de pé na assembléia dos justos” (Sl 1, 5). Também os devassos, os que vivem atolados nos prazeres sexuais desenfreados, não chegarão lá. “Felizes os puros de coração porque verão a Deus” (Mt 5, 8). O mesmo se diga sobre aqueles que se apegam por demais aos bens materiais. “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16, 13).

Além do mais, um grande auxílio para o encontro, na fé, com o Deus verdadeiro, é a inteligência. Podemos em toda a parte ver os “rastros” do Eterno, mesmo sem jamais vê-Lo neste mundo. Isso aconteceu com o coordenador do projeto Genoma Humano. O cientista Francis Collins entrou ateu no projeto e saiu como um homem de fé convicta. No entanto, eu quero lhe dar, amigo leitor, a chave que abre os caminhos mais misteriosos da existência humana. É o melhor modo de se aproximar do Ser amoroso por excelência. É se encontrar com Cristo. Este nós O vimos e tocamos com as mãos. Ele é o revelador do rosto do Pai, porque Ele relata o que viu.

sábado, 18 de junho de 2011

Tão pequena e Doutora


Na Proclamação de nossa Pequena Teresa como Doutora da Igreja, o Santo Padre João Paulo II, na Carta Apostólica Divini Amoris Scientia nos mostra como foi rápido o reconhecimento, por parte da Igreja, da santidade de Santa Teresinha e como sua espiritualidade se espalhou por todos os cristãos. Abaixo temos um pequeno trecho desta Carta. É graças à pequenez que S. Teresinha conseguiu fazer obras tão grandiosas aos olhos de Deus mas que, para nós, são as menores e mais simples coisas que podemos fazer no nosso dia a dia. Este amor ao cotidiano que nos faz alcançar forças para suportar este breve momento que passamos exilados, tendo em vista unicamente a nossa Pátria Eterna.
"Rápido, universal e constante foi o acolhimento do exemplo da sua vida e da sua doutrina evangélica no nosso século. Quase à imitação da sua precoce maturação espiritual, a sua santidade foi reconhecida pela Igreja no espaço de poucos anos. Com efeito, a 10 de Junho de 1914 Pio X assinava o decreto de introdução da causa de beatificação; a 14 de Agosto de 1921 Bento XV declarava a heroicidade das virtudes da Serva de Deus, pronunciando nessa ocasião um discurso sobre a via da infância espiritual; e Pio XI proclamava-a Beata a 29 de Abril de 1923. Pouco mais tarde, no dia 17 de Maio de 1925, o mesmo Papa diante de uma imensa multidão, canonizava-a na Basílica de São Pedro, pondo em evidência o esplendor das suas virtudes, assim como a originalidade da sua doutrina; e dois anos depois, a 14 de Dezembro de 1927, acolhendo o pedido de muitos Bispos missionários, proclamava-a, juntamente com São Francisco Xavier, Padroeira das missões.
A partir desses reconhecimentos, a irradiação espiritual de Teresa do Menino Jesus cresceu na Igreja e dilatou-se no mundo inteiro. Muitos institutos de vida consagrada e movimentos eclesiais, especialmente nas jovens Igrejas, escolheram-na como padroeira e mestra, inspirando-se na sua doutrina espiritual. A sua mensagem, muitas vezes sintetizada na chamada «pequena via», que não é senão a via evangélica da santidade para todos, foi objecto de estudo por parte de teólogos e cultores da espiritualidade.
Foram erguidos e dedicados ao Senhor, sob o patrocínio da Santa de Lisieux, catedrais, basílicas, santuários e igrejas em todo o orbe. O seu culto é celebrado pela Igreja Católica nos diversos ritos do Oriente e do Ocidente. Muitos fiéis puderam experimentar a força da sua intercessão. Muitos, chamados ao ministério sacerdotal ou à vida consagrada, especialmente nas missões e no claustro, atribuem a graça divina da vocação à sua intercessão e ao seu exemplo."
Vale a pena ler aqui a Homilia de JP II por ocasião da atribuição do título de Doutora à Santa Teresinha.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

João Paulo II, um Papa Carmelitano


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Fr. Patrício Sciadini, ocd

Parece-me que nunca houve na história da Igreja um Papa Carmelita. Que não houve nenhum Carmelita Descalço tenho certeza. Mas muitos foram os Papas que pelo Carmelo tiveram um amor especial. Vale a pena recordar especialmente o Papa Pio XI, que abertamente e em muitas circunstâncias manifestou o seu apreço pelo Carmelo Descalço. Pio XI foi um enamorado de Santa Teresinha do Menino Jesus, ao ponto de chamá-la "a estrela do seu pontificado". Foi ele também que canonizou Santa Teresa Margarida Redi, a primeira santa carmelita italiana e quem conferiu a dois carmelitas o chapéu cardinalício.
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O Papa João Paulo II manifestou ao longo de seu pontificado que a sua vida espiritual e contemplativa se alimentava da fonte do Carmelo. Ele mesmo nos conta como aprendeu a amar o Carmelo através de um costureiro que, durante os tempos difíceis da perseguição nazista, formou um grupo de oração onde se lia Santa Teresa e São João da Cruz. A descoberta dos dois místicos foi de grande importância para o jovem Karol Woytila Mais tarde ele fará sua tese doutoral sobre a fé em São João da Cruz, um tema não muito fácil. A tese lhe ofereceu a oportunidade de aprofundar-se no místico espanhol que será para ele uma forte luz durante seu pontificado, como nos recorda na carta que enviou à Ordem e à Igreja por ocasião do IV Centenário da morte do pai do Carmelo Descalço. Na carta o Papa se pergunta quais seria as novas "noites escuras" que a humanidade de hoje é chamada a viver. João Paulo II nos recorda a noite da fome e da miséria, da exploração, da falta dos direitos humanos, a noite da guerra e do mal, noites que a humanidade é chamada a enfrentar com através da fé pura.
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O Papa polaco teve a alegria de celebrar os grandes centenários vividos pelos Carmelitas Descalços, como o da morte de Santa Teresinha, do nascimento da beata Elisabete da Trindade, do nascimento de Edith Stein, da morte de São João da Cruz. Foi o Papa que teve a alegria de inserir muitos santos e beatos no calendário carmelitano, como a beata francesa Elisabete, o beato polonês Rafael, a santa judia Edith e a santa chilena Teresa dos Andes.
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Entre tanta demonstração de reconhecimento do Carmelo na Igreja, uma se destaca: a proclamação do doutorado de Santa Teresinha. Nela o Papa descobriu uma mensagem nova para a juventude, às vezes desnorteada e desorientada, com medo de dar-se a Cristo. Ao proclamar Teresa do Menino Jesus doutora da Igreja, o Papa apresenta uma jovem cheia de entusiasmo missionário, iluminando sua própria missão de pastor universal que ganha o mundo com suas viagens. Recordamos como no início do seu pontificado, João Paulo II fazia questão de visitar, onde fosse, as monjas carmelitas nos carmelos que encontrasse pelo caminho.
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Mas houve momentos também de dificuldade que ele viveu junto com o Carmelo. No processo de renovação das Constituições da Ordem, o Papa certamente sofreu com o Carmelo dividido. Sua atuação nesta parte da história, que provocou uma divisão na ordem, ainda deve ser aprofundada. As intenções do Santo Padre, certamente, foram as melhores, e isto se comprova pelas inúmeras palavras dirigidas ao Carmelo e as inúmeras citações da espiritualidade carmelitana em seus escritos. Um dia o Carmelo reunirá em um livro todos os discrusos do Papa João Paulo II dirigidos ao Carmelo e todas as referências a ele em seus discursos, ao longo dos 26 anos de seu Pontificado. Palavras que teremos a alegria de ler e meditar, ajudando-nos a um constante exame de consciência, a fim de seguirmos caminhando com a Igreja e em sintonia com Ela.
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A beatificação do papa João Paulo II é fonte de regozijo de toda a família carmelitana e nos permite dizer que este Papa é prata da casa, um Papa carmelitano.
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Escrevo este artigo daqui do Egito, contando unicamente com os recursos da minha memória, em que a figura de João Paulo II encontra-se bem fixada, ele que sempre usou o escapulário e que, em diversas circunstâncias revelou o desejo de ser carmelita descalço. Deus, porém, tinha para ele um outro plano.
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Que do céu ele olhe para o Carmelo Teresiano e abençoe-nos, para que no IIº milênio o Carmelo siga dando santos e santas para a Igreja e seja, no mundo, uma voz clara e audível da oração e da contemplação.